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  • Mauricio Cruz

Traído pela memória


Tenho 42 anos. Amo futebol desde que me lembro. Dos campos da várzea junto com meu pai, sempre fui mais fã do esporte, (obrigado pelo jargão, ESPN) do que torcedor fanático de um time brasileiro. O futebol bem jogado sempre teve um espaço especial no meu coração.


Dito isso, fiquei contente em saber que o SporTV estava transmitindo os jogos do Brasil na Copa de 1982. Minha memória teimava em me dizer que aquele foi o melhor time de futebol que eu vi jogar. Uma mística seleção cheia de craques: Zico, Sócrates, Falcão, Oscar, Éder, Júnior, Leandro. Claro que sei que há quase 40 anos atrás o ritmo iria ser outro, mas com isso em mente, parei na frente da TV para ver um pedaço de uma das partidas, lambendo os beiços. E descobri, triste, que minha memória me traiu.


O talento estava lá, claro. Mas a intensidade era pior do que eu esperava.


Culpa do Liverpool, que me fez adorar um futebol rápido, num ritmo alucinante, com os caras correndo feito retardados vermelhos atrás da bola por noventa minutos. O meu gosto do futebol mudou. Vi dez minutos do sonolento time do Zico e coloquei num filme.


Já disse algumas vezes que apresentações do tipo que fizemos contra a Roma em Anfield, pela semi da UCL 17/18, ou contra o Leicester meses atrás no King Power, me enchem os olhos. Para mim aquilo é a nata do futebol. Futebol arte. Mas com muita força.


Posso ser crucificado aqui, mas o futebol tiki taka que dominou a Espanha e a Europa anos atrás também me dava sono. Até o todo poderoso Barcelona que passou o carro em todo mundo não me apetecia como arte. O tipo que eu gosto de arte.


Não sou louco de falar mal de um estilo que deu duas Euros (2008 e 12) e uma Copa (2010) para os espanhóis, além de várias taças para o time de Messi. Mas não me deu prazer, como amante da bola, como o meu Liverpool já me deu.


No 4-3 contra o City em Anfield, em 2018, além dos quatro gols, Ederson fez defesas inacreditáveis e ainda acertamos a trave. O time não parava, era uma intensidade insana. O mesmo contra a Roma. Cinco gols e Mane perdendo mais dentro da área, cabeçada do Lovren no travessão... Contra o Leicester, a mesma coisa. Contra o Barça. Contra o City na UCL...


Então, traído pela memória, vou dar mais uma chance a ela. Vou fazer desse time do Liverpool o meu novo exemplo de futebol. É sobre ele que vou lembrar com carinho lá na frente. Que irei contar daqui há 30 anos para as crianças que amam futebol. Que eu estava lá. Que aquele era o meu time do coração.


E que nada era melhor que aquilo, falando de bola, que eu me lembrasse. Tenho certeza que, dessa vez, minha memória não vai me enganar.


#YNWA