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  • Anderson Zotto

Mundial de Clubes: O torneio que nos resta

Zico sendo perseguido por Dalglish no mundial de 1981 (Foto: Masahide Tomikoshi)

O Mundial Interclubes do Catar este ano começou dia 11 de dezembro, e o Liverpool jogará amanhã, dia 18, já sabendo o finalista da outra chave. O torneio, que tem muito desconhecimento por parte de Jurgen Klopp e de nossos jogadores, será realizado pela penúltima vez neste formato atual.


O convocados para o torneio são: Adrián, Alisson e Lonergan; Alexander-Arnold, Robertson e Williams; Gomez e Van Dijk; Henderson, Jones, Keita, Lallana, Milner, Oxlade-Chamberlain e Wijnaldum; Brewster, Elliott, Firmino, Mané, Salah, Shaqiri e Origi.


Ao todo, são quatro desfalques confirmados, que sequer viajaram junto ao elenco. Fabinho, Matip, Lovren e Clyne, lesionados, estarão de fora. Wijnaldum, que saiu lesionado no último jogo pela Premier League contra o Watford, não jogará a semifinal, porém estará disponível caso cheguemos à final.


O primeiro adversário do Liverpool será o Monterrey. Para enfrentar os mexicanos, não seria nenhuma surpresa uma equipe alternativa ir à campo, ou apenas alguns jogadores como Lallana, Origi e até o goleiro Adrián entrarem.


O Mundial faz falta. A Premier League ainda pega nos corações de nossos torcedores, afinal o último título veio duas temporadas antes da antiga English Football League terminar e dar lugar à liga atual, porém, o clube ainda pode afirmar que foi campeão nacional 18 outras vezes.


Seis Champions League, três Europa League, quatro Supercopas da UEFA, 18 campeonatos ingleses, sete FA Cup, oito Copas da Liga, 15 supercopas da Inglaterra e até mesmo quatro títulos da 2° divisão da Inglaterra. Estes são os troféus do que abrilhantam nosso muro dos campeões, uma galeria de dar inveja a qualquer um.


Mesmo com estas conquistas, há uma que nunca fez parte do nosso muro, independente do formato em que se disputou. O Mundial Interclubes. Aqui, relatarei sobre como foi o desempenho do Liverpool nos outros cinco mundiais que os Reds participaram, ou pelo menos poderiam participar.


1977 e 1978: A campanhas das Malvinas, o calendário, América do México e o boicote à Jorge Rafael Videla


Em 1976/1977 a temporada do Liverpool foi fantástica, ganhando sua primeira UCL, sobre o Borussia Monchengladbach, e emendando um bicampeonato inglês com campanha invicta em Anfield. Com isso, o Liverpool ganhou o direito de jogar a Copa Intercontinental de 1977, contra o campeão da Copa Libertadores da América do mesmo ano, o Boca Juniors, em ida e volta. Com o primeiro jogo em Buenos Aires, na famosa La Bombonera e a volta diante da fortaleza do Liverpool, Anfield.


Porém, neste mesmo período a Argentina estava em plena ditadura militar do general Jorge Rafael Videla, que em sua campanha nacionalista reivindicava na política externa a retomada das Ilhas Malvinas (oficialmente conhecidas como Ilhas Falklands) como parte do território argentino. Uma reivindicação ocorrida desde o primeiro governo de Juan Manuel Perón, ex-presidente e figura carismática argentina, no fim da Segunda Guerra Mundial.


As tensões entre os países fizeram com que o Liverpool, diante de um posicionamento político externo desfavorável a seu país e um calendário apertadíssimo que espremia jogos no mês de dezembro acumulando liga, copa e Champions, junto de um baixo retorno financeiro já experimentado por outros clubes europeus, desistisse do torneio.


O Boca Juniors, então, negociou com o vice-campeão europeu, o Borussia, para a realização do torneio, no qual o Boca levou a melhor após um empate em Buenos Aires e uma vitória na Alemanha.


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Já em 78, o Liverpool repetiu o feito do ano anterior, vencendo a Champions League. Desta vez, bateu um surpreendente Club Brugge em Wembley e novamente pode disputar o Mundial.


Naquele ano, houve no continente americano uma crise a respeito de quem deveria disputar o Mundial de Clubes. Tempos antes, o então presidente da Fifa, Stanley Rous havia sugerido a integração de todos os continentes, reprovado tanto pela UEFA quanto pela CONMEBOL, porém, a instituição sul-americana, junto com a CONCACAF, acabou por sugerir uma alternativa, a Copa Interamericana, disputada entre o campeão da Libertadores e o campeão da Liga dos Campeões da CONCACAF, disputada desde 1968.


Em 1977, o América do México havia batido o Robin Hood do Suriname na final, ganhando o direito de disputar a Copa Interamericana contra o campeão de 1978 da Libertadores, o Boca Juniors. O América bateu o Boca Juniors, sendo o primeiro campeão da CONCACAF a poder jogar o Mundial contra um Europeu.


Porém, o Liverpool novamente se recusou a disputar o torneio. Tanto por causa do calendário apertadíssimo, quanto por causa dos atritos na relação Argentina e Reino Unido, com uma fortíssima suspeita de que a Argentina desejava invadir as Ilhas Malvinas, confirmada anos depois na Guerra das Malvinas.


O Anderlecht, da Bélgica, então campeão da Supercopa da Europa, foi anunciado para enfrentar o América do México pelo Mundial, chegando até mesmo a marcar os jogos. Mas no final, a iniciativa nunca saiu do papel e não aconteceu a disputa do mundial de 1978, ficando o título vago.

1981: Enfim, vamos ao Mundial


Em 1981, o Liverpool vivia o auge dos seus anos dourados. Novamente bicampeão inglês, em 78/79 e 79/80, os Reds chegavam a mais uma final de Champions League, mas desta vez contra uma equipe de peso maior, o Real Madrid, que naquele tempo jejuava sem o troféu desde 1966.


Naquela noite, com um gol do zagueiro Alan Kennedy, o Liverpool bateu os espanhóis por 1x0 e conquistou sua terceira Champions League, podendo, mais uma vez, disputar o Mundial.


Em um formato simplificado, respeitando datas coerentes e patrocinado pela gigante japonesa Toyota, o torneio tomava ares de profissionalismo. Marcado para 13 de dezembro de 1981, a máquina do Liverpool havia sofrido uma grande renovação em relação ao título da UCL, devido à média de idade alta da equipe.


O elenco enviado ao Japão foi: Bruce Grobbelaar e Steve Ogrizovic; Phil Neal e Mark Lawrenson; Phil Thompson, Alan Hansen e Alan Kennedy; Sammy Lee, Terry McDermontt, Graeme Souness, Ray Kennedy, Kevin Sheedy e Ronnie Whelan; Craig Johnston, Kenny Dalglish e David Johnson. O técnico era Bob Paisley.


Do outro lado, desta vez, estava o Flamengo. Era um time extremamente conhecido, que dava calafrios a um europeu, assim como todos os times brasileiros da época. Cada vitória europeia era celebrada como um título. O Liverpool foi a campo atrás de sua vitória sobre o futebol brasileiro, colocando todas as suas esperanças no craque escocês, Kenny Dalglish contra o craque brasileiro e camisa 10 da seleção brasileira, Zico.


As esperanças do Liverpool se esvaíram em menos de 45 minutos dentro do Estádio Olímpico de Tóquio.


A máquina flamenguista que havia conquistado dois títulos na semana anterior, levou o seu terceiro título para consolidar a gigantesca era que vivia do outro lado do oceano. Nunes aos 13, Adílio aos 34 e Nunes, de novo, aos 41, selaram o caixão para mostrar que o futebol brasileiro era imponente e dominava o seu tempo.


Final do Mundial de 1981:


1984: O fim de uma era, e até logo mundial


Em 1983/84 o Liverpool atingia seu ápice ao conquistar um triplete. Arrematou a liga, a FA Cup e a Champions League na mesma temporada. A era de ouro do Liverpool ainda teve mais glórias adiante, porém, logo cessou. 1984 era a chance definitiva do Liverpool, por 21 anos, mesmo que estes não soubessem à época, de levantar o mundo.


Na UCL de 1983/84, o Liverpool enfrentou a Roma na final, uma equipe que não é muito tradicional em competições europeias, porém vivia um dos melhores momentos de sua história naquela metade dos anos 80. O meio-campo dos sonhos da Loba era comandado por Paulo Roberto Falcão, Toninho Cerezo e Bruno Conti, tendo a chance de fazer a final da Champions em sua própria casa, o estádio Olímpico de Roma.


Num jogo duro, de muitas chances para ambos os lados, o empate em 1a 1 acabou servindo como um consolo, já que o campeão sairia da disputa de pênaltis. Inspirado, o gigante Bruce Grobbelaar pegou dois tentos e deu a quarta Champions ao Liverpool.


Para tornar o caldo do mundial de 1984 mais divertido, pela terceira vez o Liverpool estava apto a enfrentar um argentino no mundial. Mas calma, desta vez as relações exteriores entre ambos os países estavam tranquilas. Havia dois anos que a ditadura militar argentina teve seu fim, após a derrota na Guerra das Malvinas. O presidente Raúl Alfonsín havia reatado com o Reino Unido e ambos os países ficaram em situação amigável.


O mundial entre um britânico e um argentino, finalmente pode ocorrer de forma pacífica. O elenco enviado ao Japão em 1984 foi: Bruce Grobbelaar e Bob Bolder; Phil Neal e Alan Kennedy; Alan Hansen e Gary Gillespie; Craig Johnston, John Wark, Jan Molb, Steve Nicol, Ronnie Whelan e Kevin MacDonald; Kenny Dalglish, Ian Rush e Michael Robinson. O técnico era Joe Fagan.


A pacificidade de fora do campo refletiu num confronto que foi pacífico até demais. Com a grama do Estádio Olímpico castigada pelo rigoroso inverno japonês daquele ano, foram poucas disputas, um gol aos seis minutos de jogo a favor do Independiente foi o suficiente para garantir o título aos sul-americanos.


Final do Mundial de 1984:


2005: Bem-vindos de volta, Reds


Passados 21 anos do seu último mundial, o Liverpool foi novamente ao Japão. Desta vez em um original e totalmente renovado formato de campeonato mundial. Com seis participantes (um campeão de cada confederação continental), o Liverpool viajou novamente para buscar a taça do Mundial Interclubes, organizado pela Fifa e com mais jogos na bagagem.


O caminho ao Japão foi difícil. Em Istambul, naquele 25 de maio de 2005, o Liverpool começou a final da UCL contra a poderosa equipe do Milan, então hexacampeã em busca de seu heptacampeonato. No primeiro tempo, houve um massacre italiano no estádio Ataturk, 3 a 0 em 45 minutos.


Parecia que estava sacramentado o título italiano. Mas não, na maior virada do século XXI, ocorreram os maiores seis minutos da história do Liverpool. A história todos conhecem.


No Japão, os campeões continentais se enfrentariam em formato de mata-mata. O Liverpool enfrentaria o vencedor do confronto entre Deportivo Saprissa da Costa Rica, campeão da Concacaf, e Sidney FC, que havia batido o Al-Ahly do Egito, campeão africano.


O time enviado ao Japão naquele ano contava com: Pepe Reina, Jerzy Dudek e Scott Carson; Steve Finnan, Stephen Warnock, Josemi e John-Arne Riise; Sami Hyypia, Jamie Carragher e Djimi Traoré; Harry Kewell, Xabi Alonso, Steven Gerrard, Mohammed Sissoko, Dietmar Hamman e Luís García; Fernando Morientes, Peter Crouch, Florent Sinama-Pongolle e Djibril Cissé. O técnico era Rafa Benítez.


O Liverpool enfrentou o Deportivo Saprissa na semifinal, e sequer teve muito esforço para bater os costarriquenhos. Logo aos três minutos, Peter Crouch abriu o placar, aos 32' Gerrard fez o segundo, e aos 13' do segundo tempo, Crouch novamente marcou, dando números finais ao jogo, 3 a 0.


Semifinal Liverpool 3x0 Deportivo Saprissa:


Na final, o Liverpool enfrentou o São Paulo, que se classificou após vencer o Al Ittihad por 3 a 2. O jogo no Yokohama Stadium, mesmo palco do pentacampeonato da seleção brasileira em 2002, tinha ares de grande confronto no Brasil, e algo de importância secundária para o público inglês, como todos os outros mundiais disputados anteriormente.


Em termos estatísticos, o Liverpool passeou em campo sobre o São Paulo, mas no futebol a única estatística que importa é o gol. Se em Istambul o iluminado era Jerzy Dudek, em Yokohama o iluminado era Rogério Ceni.

O maior jogador da história do São Paulo segurou 90 minutos de pressão de maneira absurda, e aos 27 minutos, Aloísio, que nunca foi exuberante em técnica, acertou um excelente passe para o volante Mineiro, que infiltrado na defesa vermelha, fez o único gol daquele confronto.


Final do Mundial de 2005:

A noite de Ceni foi uma das melhores exibições individuais da história do futebol mundial, e garantiu que, mais uma vez, o Liverpool voltasse sem o título mundial. Será que em 2019 a história será diferente?


O Liverpool irá ao Catar com força máxima e poderá reencontrar a primeira equipe que enfrentou dentro de campo na história do Mundial, o Flamengo, que vive a temporada dos sonhos.