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  • Pedro Henrique

Jurgen Klopp e a redenção do gigante adormecido


(Foto: liverpoolfc.com)

A história começa em 2010 com o Liverpool na zona de rebaixamento da Premier League e à beira da falência. O clube era comandado pelos terríveis Tom Hicks e George Gillet, que cada vez mais manchavam e afundavam o brilhante e glorioso passado dos reds.


A situação era tão alarmante, que uma arrastada e complicada batalha judicial acontecia e os empresários faziam de tudo para que a venda do clube fosse impedida. Chegaram até ameaçar um processo contra o clube e seus dirigentes, mas não teve jeito. O clube venceu e ali começou a ressurgimento do gigante.


A Fenway Sports Group (FSG) assumiu o comando do Liverpool a partir dali e tinha a difícil missão de reestruturar um clube com dívidas altíssimas e sem nenhuma confiança dentre os investidores locais. Nada que fosse impossível, para o grupo que já era dono do Boston Red Sox e tinha certa experiência.


Economicamente as coisas foram melhorando, mas essa melhora ficava somente fora dos gramados, pois dentro das quatro linhas o Liverpool continuava sofrendo. Hoy Hodson, que já era o treinador quando a FSG assumiu, não era capaz de elevar o patamar do time. Kenny Dalglish, que voltaria a treinar o Liverpool, chegou até a conquistar a Copa da Liga Inglesa em 2011/12 e encerrar o jejum de seis anos sem ganhar nenhum título, mas ainda não era o ideal. O desempenho dentro de campo era muito abaixo de um time que queria competir como um grande do futebol.


E o problema não era investimento. O Liverpool era patrocinado pela Standard Chartered Bank - maior de sua história - e gastava rios de dinheiro em jogadores medianos, como Caroll, Downing, Coates, Fabio Borini e companhia.


A chegada de Brendan Rodgers em 2012 mostrou que a diretoria acenava para uma visão mais moderna sobre a sua forma de pensar futebol e o treinador era a representação dessa ideia. Vindo de um Swansea que chegou a elite do futebol inglês praticando um futebol corajoso e ofensivo, o irlandês foi peça fundamental para o Liverpool chegar aonde está hoje.


Seu único erro, se é que podemos chamar assim, foi ter feito seu time deslanchar precocemente. O Liverpool de Sturridge, Coutinho, Sterling, Suaréz e Gerrard quase ganhou a Premier League em 2013/14, mas hoje, anos depois, é fácil enxergar que para aquele time mágico faltava consistência de trabalho e muitos ajustes para ser um time campeão.


E como todo processo que tem seus degraus pulados de forma inesperada, o trabalho do jovem Brendan Rodgers sucumbiu e foi engolido pela grandeza do clube, que exigia por si só uma campanha superior ao vice campeonato do ano anterior. Claro que isso não aconteceu e obrigou aos diretores a apostar em alguém melhor capacitado e experiente.


Aí que entra o ponto chave desse texto. Jurgen Klopp, que já chegou mostrando que era o cara ideal para o desafio enorme que teria no clube.


Em sua primeira entrevista, ao ser perguntado sobre qual apelido ele daria a si próprio - em alusão a José Mourinho, que fazia questão de se auto nomear "The Special One" - Klopp sorridente, respondeu:


"Não vou me chamar de nada. Sou um cara normal da Floresta Negra, e minha mãe está assistindo à entrevista em casa. Se forem me chamar de alguma coisa, me chamem de "Normal One" - disse ele.


Essa declaração, juntamente do seu perfil sorridente, deixava claro que Anfield Road nunca mais seria o mesmo. A FSG finalmente achou alguém que completaria a máquina (boa administração + conhecimento e desempenho futebolístico) e se tornaria a engrenagem perfeita.



Klopp tocando pela primeira vez como treinador do Liverpool a lendária placa "This is Anfield" (Foto: liverpoolfc.com)

Klopp fez as exigências que quis, trouxe os jogadores de acordo com a sua maneira e enxergar futebol e manteve a coerência as suas falas e estilos até o dia de hoje. Resultado: o topo do mundo.


Mas calma, nada caiu do céu não. O trabalho foi bem feito. Desde os alicerces até a laje. Jurgen Klopp não montou uma tenda, mas sim uma fortaleza para se trabalhar.


Em 2015/16 o Liverpool foi o 8° colocado na Premier League e chegou até a final da Liga Europa. Perdendo para o Sevilla na final. No ano seguinte apenas 4° colocado no inglês. Em 2017/18 a 4° colocação persistiu, mas dessa vez chegaram até a final da Liga dos Campeões, perdendo para o Real Madrid na decisão.


Se parassemos para olhar os números friamente, o Liverpool de Klopp era um time gastador e que não entregava o que prometia. Dentro de campo o time oscilava entre um futebol bonito de se ver, mas que não se sustentava. Como não estamos no Brasil (ainda bem), o trabalho teve continuidade e a recompensa chegou.


97 pontos no Campeonato Inglês, que não foram suficientes para a conquista. Acabaram esbarrando num grande Manchester City (que somou 98 pontos) e ficando com o recorde de maior número de pontos obtidos por um segundo colocado na história. Ta ruim? Ta nada. O Liverpool brigava em duas frentes e terminou a temporada campeão europeu pela sexta vez. Competição que coroava o brilhante trabalho do treinador alemão e seus comandados.


O mesmo que eu disse para o trabalho de Rodgers vale para Klopp, um grande trabalho em um time do tamanho do Liverpool sempre vem acompanhado de uma expectativa ainda maior no ano seguinte. E o chucrute alemão aumentou o sarrafo.


Logo de cara perdeu a sem importância Supercopa da Inglaterra, mas na semana seguinte foi lá e bateu o Chelsea na Supercopa da Europa - essa que já valia de verdade.


Na Premier League o Liverpool voa muito mais alto que seus rivais. 10 pontos à frente do segundo colocado Leicester, com 16 vitórias e 1 empate, em 17 jogos disputados. Na Champions League o clube já está garantido na oitavas de final, pra enfrentar o Atlético de Madrid. E ontem, dia 20 de Dezembro o Liverpool de Klopp chegou ao mais alto posto do mundo: sagrando-se campeões mundiais.


Título que não tem tanta relevância, é verdade, mas é um troféu que o clube ainda não havia vencido e que serve para autoafirmar o melhor time do mundo, não só pelas conquistas, mas também pelo grande futebol que o seu time vem jogando.


Até onde o Liverpool de Klopp pode chegar? Essa é a pergunta que fica e que será respondida logo logo, já que o treinador estendeu seu contrato com o Liverpool até 2024 e promete continuar atormentando seus adversários.