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  • Anderson Zotto

Errar é humano, nossos goleiros também


Adrián vem jogando abaixo da média nos últimos jogos (Foto: liverpoolfc.com)

Ser goleiro não é fácil. É uma posição ingrata e que por muitos anos foi negligenciada no futebol. Ele estava lá só pra tentar defender e se falhasse era crucificado. Basta ver os vídeos mais antigos, onde os goleiros tinham pouco traquejo, péssimo posicionamento e contavam muito mais com o próprio reflexo rápido do que pelo conjunto que o fazia bom.


Ontem, Adrián falhou na prorrogação, entregando um gol para o Atletico de Madrid e desestabilizando o Liverpool. Nas redes sociais o goleiro está sendo extremamente criticado, sendo colocado como o único culpado pela derrota. Injustiça.


Raros casos do passado dão valor aos goleiros, mas sempre os crucificam aos montes. Ricardo Zamora, o espetacular goleiro espanhol, foi um ícone do período anterior à segunda guerra mundial. Mas era um anjo solitário a ser cultuado pelo que fazia abaixo das traves. Enquanto o espetacular Barbosa, que segundo Léo Baptista era um goleiro de altíssimo nível, foi crucificado pelo escorregão no Maracanazzo.


Após os anos 1950, a figura do russo Lev Yashin mudaria a face dos goleiros para sempre. Com um treinador próprio, Yashin reinventou o ato de ser goleiro, ter bom tempo de bola, posicionamento, dono da área onde quer que seja, reflexos imensos e, mais importante ainda, treinar para pegar pênaltis.


Desde então, os goleiros começaram a conceber idolatrias raramente experimentadas. No Liverpool não foi diferente. Tivemos alguns goleiros notáveis, como Tommy Lawrence, que participou da era Bill Shankly e da reconstrução do Liverpool, Arthur Riley, que atuou 15 anos no período entreguerras, Ray Clemence, Bruce Grobbelaar, David James, Jerzy Dudek e Pepe Reina. Todos estes notórios membros do arco de Anfield Road.

A responsabilidade recente caiu no ombro de dois goleiros que poderiam ser queridos em Anfield, mas o futebol foi trágico com eles.


Karius não era mal goleiro, como foi impregnado na mente dos Reds após a final contra o Real Madrid. Faltou preparo mental, ou talvez tenha sido a concussão sofrida após a cotovelada de Sérgio Ramos. Não sei dizer, até porque não sou fisiologista do Liverpool e muito menos o próprio Karius.


Após uma temporada muito boa, duas falhas brutais que nos tiraram o hexa crucificaram o jovem alemão, que hoje realiza seu caminho em autoexílio na Turquia, sendo querido pela torcida do Besiktas.


O alemão tinha sua qualidade. No mesmo ano das falhas, ele impediu uma derrota pro Everton fechando o gol, além de ser muito importante em diversos momentos daquela temporada. Mas nunca esquecerão do fatídico 1º de junho de 2018.


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Agora o crucificado é Adrián. As falhas de ontem, somadas á insegurança do arqueiro, tornaram ele o novo culpado da eliminação, mesmo que tenha a ver com o conjunto completo. Afinal, pegar o bode expiatório é sempre preferível a culpar a todos. Quanto menos culpados, melhor para extravasar a raiva. Pobre Adrián.


Já esqueceram o quanto ele foi bom para o começo da temporada, quando Alisson se lesionou. Sim, a má fase dele estava difícil de lidar, mas ele era o nosso reserva e provou que pode ajudar.


Pense no que seria se ontem Klopp colocasse o Kelleher? O garoto seria posto na cruz aos 20 anos de idade? E Lonergan? Que ninguém lembra que tá no elenco? Não podemos esquecer que por trás dos goleiros existem seres humanos com as melhores intenções.


Bruce Grobbelaar já fez gol contra em uma final contra o Everton. O primeiro gol contra em mais de 40 anos no Derby. Este gol deu o título ao nosso rival. Pepe reina já tomou o incônico gol da bola de praia, mesmo que não fosse culpa dele. Alisson contra o Leicester na temporada passada perdeu a bola tentando driblar o atacante.


Falhas ocorrem, mas errar é humano. Nossos goleiros também.